15 de maio de 2009

Alongamento no Futsal

Autos: Cristovão Fiamenghi da Silveira¹ & Anna Raquel Silveira Gomes²
¹Professor de Educação Física, Mestrando em Exercício e Esporte pelo MINTER UFPR/UNIPAR, Preparador Físico Associação Futsal Umuarama
²Fisioterapeuta, Professora do curso de Fisioterapia e do Mestrado Interinstitucional (MINTER) UFPR/UNIPAR

O futsal é uma modalidade esportiva coletiva com característica intermitente, onde a interação das capacidades físicas, força, velocidade, resistência, e flexibilidade determinam o nível de desempenho físico dos atletas. Para a melhora ou manutenção do condicionamento destas capacidades físicas, muitos são os métodos de treinamentos utilizados, o alongamento por sua vez, é um método que visa causar adaptação aguda (que podem durar minutos ou horas dependendo da intensidade dos exercícios) e crônica (que podem durar dias e meses dependendo da manutenção dos índices atingidos) na capacidade física da flexibilidade.
DANTAS (1999) ressalta que a fase pré-pubertória é a ideal para iniciar um trabalho sistemático de treinamento da flexibilidade, mesmo se podendo estimular as estruturas corporais a adquirir elevado grau de mobilidade desde a mais tenra idade, porém, mesmo se tendo esta indicação é comum encontrarmos atletas em fase adulta apresentando quadros graves de encurtamentos musculares, o que demonstra a importância desta dissertação, que possui como maior objetivo discutir a aplicabilidade do alongamento na modalidade futsal.
A unidade contrátil do músculo é denominada sarcômero, e o conjunto destes sarcômeros formam as miofibrilas que associados a núcleos, mitocôndrias, retículo sarcoplasmático e outras organelas formam a fibra muscular (como demonstrado na figura 1).

Figura 1: Desenho esquemático de um músculo estriado esquelético em corte transversal mostrando miofibrila, perimísio, endomísio, epimísio e fibra muscular.


Figura 2: A) Sarcômero (eletromicrografia)
B) Representação esquemática do sarcômero

O músculo possui grande potencial de adaptação, se for estimulado a grandes amplitudes, naturalmente atingirá níveis superiores de flexibilidade, porém se pouco estimulado ou mesmo imobilizado por possíveis lesões, poderá apresentar redução nos graus de flexibilidade. Esta adaptação se faz pela capacidade do músculo em produzir ou perder sarcômeros em série e em paralelo, através da síntese ou degradação de proteínas, e isso torna o alongamento um método de treinamento eficiente também para a HIPERTROFIA (aumento do volume muscular). Os resultados encontrados por COUTINHO, GOMES, FRANÇA, OISHI, SALVINI (2004), demonstram estas adaptações em estudo realizado com músculo sóleo de ratos e comparados com músculo contralateral, estes foram divididos em três grupos com estímulos diferentes, onde o grupo 1 foi somente imobilizado por três semanas e apresentou perda de peso médio de 44%, comprimento médio 19%, número de sarcômeros em série em média de 23% e área de secção transversa das fibras musculares em média de 37%, já o grupo 2 que foi imobilizado e alongado por 40 minutos a cada três dias, apresentou resultados semelhantes, porém amenizou a atrofia. O grupo 3, que por sua vez apenas recebeu alongamento apresentou resultados de aumentos significativos no comprimento muscular (5%), número de sarcômeros em série (5%) e área de secção transversa das fibras musculares (16%), e os autores concluíram que sessões de alongamentos promoveram os efeitos da hipertrofia no grupo que somente alongou, e que o alongamento a cada três dias em músculo imobilizado não evita o encurtamento muscular, mas reduz a atrofia.
JUNIOR (1999), cita que existem cinco métodos de treinamento da flexibilidade: (1) alongamento estático, onde o indivíduo move o grupo muscular até atingir determinada amplitude e permanece na posição; (2) alongamento passivo, que é realizado com forças externas; (3) alongamento ativo, que é o alongamento realizado por força dos músculos envolvidos no movimento; (4) alongamento balístico, que realiza vários esforços musculares ativos insistidos, na tentativa de maior alcance de movimento; (5) facilitação neuro-proprioceptiva (FNP), que combina contração e relaxamento nos músculos, associado ao alongamento passivo.


Figura 3: Tipos de Alongamento
Dentre estes métodos apresentados pelo autor, os alongamentos mais comuns no meio do futsal são os métodos de alongamento estático, alongamento ativo e alongamento passivo, porém as atividades articulares realizadas como aquecimentos são também bastante comuns, mas muitas vezes não classificados como alongamentos dinâmicos balísticos pelos profissionais que atuam no meio.
É característica dos esportes nas mais variadas modalidades, utilizarem alongamentos como forma preparatória para outras atividades, porém esta pode ser uma escolha equivocada dependendo da intensidade, principalmente por modalidades como o futsal, com características de força e velocidade, como podemos observar por alguns estudos.
ROBBINS, SCHEUERMANN (2008), avaliaram as respostas de adaptações agudas de alongamentos estáticos no desempenho de saltos (potencia de membros inferiores), e concluíram que não é recomendado alongar noventa segundos um grupo muscular que se tenha como objetivo desempenho em atividades de potencia como por exemplo saltos verticais.
Já SIATRAS, MITTAS, MAMELETZI, VAMVAKOUDIS (2008), em estudo que também teve como objetivo avaliar o efeito agudo da duração do alongamento estático, porém no pico de torque isométrico e isocinético do quadríceps, e constataram que exercícios de alongamentos estáticos por mais de trinta segundos devem ser evitados em grupos musculares antes de atividades que requerem força máxima.
BEEDLE, RITTER, HEALY, WARD (2008), por sua vez, avaliaram se haveria diferença significativa entre três séries de alongamento estático de quinze segundos de aplicação por dez segundos de intervalo, comparado a três series de trinta segundos também com intervalo de dez segundos, e um terceiro grupo que não alongou, na força máxima de 1RM no leg press, e não foram encontradas diferenças significativas entre os tratamentos e concluíram que alongamentos de intensidade moderada não apresentam efeito adverso no teste de 1 RM no leg press.
As possíveis perdas de força como resposta do efeito agudo do alongamento é justificado pela alteração do posicionamento das proteínas que compõem o sarcômero. Os filamentos de actina e miosina possuem um nível ótimo de interação para a qualidade da contração muscular e o afastamento destas proteínas reduz esta capacidade, como pode ser observado na Figura 4.


FIGURA 4: Na ordenada estão representados os valores da porcentagem de tensão e na abscissa os valores do comprimento do sarcômero (mm). Demonstração gráfica do ponto ótimo de interação das proteínas contrateis, sinalizada pela seta vermelha, com o desenvolvimento de tensão máxima.

A seta vermelha na figura 4 demonstra o ponto ótimo de interação entre as proteínas contrateis (actina e miosina) responsáveis pela geração de contração muscular máxima. Alguns estudos evidenciam queda no desempenho, principalmente de atividades de força e velocidade, após alongamento pré atividade. Isto pode ser explicado pelo fato do sarcômero atingir níveis superiores de comprimento no momento do alongamento e imediatamente após, prejudicando assim a interação ótima entre actina e miosina, promovendo queda na força muscular. Também com esta figura 4, podemos justificar a aplicação de alongamentos ao final das atividades do futsal, já que neste momento os sarcômeros se encontram encurtados e também fora do ponto ótimo de interação das proteínas. Assim, após o treino o objetivo seria diminuir a tensão muscular gerada pela atividade intensa.
A força muscular pode também ser inibida por meio da coordenação intermuscular, músculos isquiotibiais encurtados podem diminuir a ação dos extensores de joelhos na ação de chute, ou seja, como existe encurtamento muscular significativo dos isquiotibiais a precocidade do estiramento máximo do fuso muscular (fibras responsáveis pelo controle do estiramento muscular) emitem mensagens para cessar a contração dos extensores de joelho para que os isquiotibiais não lesem, e estes estímulos limitam a produção de força. Em estudo que demonstra a melhora de performance através das adaptações crônicas do alongamento e a sua importância, KOKKONEN, NELSON, ELDREDGE, WINCHESTER (2007), encontraram aumento da flexibilidade de 18,1%, da performance vertical de 6,7%, do salto em distância, da velocidade de vinte metros de 1,3% e de 1RM de 30,4%, se utilizando de alongamentos estáticos em dez semanas de treinamento, três dias por semana 40 minutos, onde o grupo controle por sua vez, não apresentou melhoras.
Depois de todas estas observações, concluímos dizendo que a aplicação de alongamentos na modalidade futsal é de extrema importância para possíveis aumentos nas amplitudes de movimento e consequentemente favorecerem melhoras de coordenação técnica como chutes e possíveis quedas de goleiros, assim como na facilitação das capacidades de força e velocidade. No entanto, se deve ter atenção à aplicação dos mesmos em determinados momentos da periodização, porque alguns efeitos agudos parecem ser prejudiciais ao desempenho momentâneo.


Referências Bibliográficas

Beedle, J.W.; Rytter, S.J.; Healy R.C.; Ward, T.R. Pretesting static and dynamic stretching does not affect maximal strength. Journal of Strength and Conditioning Research, 22(6):1838-43, 2008.
Coutinho, E.L.; Gomes, A.R.S.; França, C.N.; Oishi, J. and Salvini, T.F. Effect of passive stretching on the immobilized soleus muscle fiber morphology. Brazilian Journal of Medical and Biological Research, 37: 1853-1861, 2004.
Dantas, E.H.M.; Flexibilidade alongamento e flexionamento. 4ª edição Editora Shape, Rio de Janeiro - RJ, 1999.
Gordon, A.M.; Huxley, A. F. and Julian, F.J.. The variation in isometric tension with sarcomere lenght in vertebrate muscle fibers. Journal Physiology (London), 184: 170-192; 1966.
Junior, A.C.; Bases para exercícios de alongamento. 2ª edição Phorte Editora, Guarulhos - SP, 1999.
Kokkonen J.; Nelson, A.G.; Eldredge, C.; Winchester, J.B. Chronic static stretching improves exercise performance. Med Sci. Sports Exerc., 39(10): 1825-31, 2007.
Robbins, J.W.; Scheuremann, B.W. Varying amounts of acute stretching and its effect on vertical jump performance. Journal of Strength and Conditioning Research, 22(3): 781-6, 2008.
Siatras, T.A.; Mittas V.P.; Mameletzi, D.N.; Vamvakoudis E.A. The duration of the inhibitory effects with static stretching on quadriceps peak torque production. Journal of Strength and Conditioning Research, 22(1): 40-6, 2008.
Wilmore, J.H.; Costill, D.L. Fisiologia do esporte e do exercício. 2ª edição Editora Manole, Barueri - SP, 2001.

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